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Piero Cipollone
Member of the ECB's Executive Board
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Entrevista ao Jornal de Negócios

Entrevista a Piero Cipollone, membro da Comissão Executiva do Banco Central Europeu (BCE), realizada por Ricardo Jesus Silva, em 29 de junho de 2026

13 de julho de 2026

O euro digital recebeu na semana passada “luz verde” do Parlamento Europeu. Ainda existem grandes obstáculos a ultrapassar ou o projeto tem caminho livre para ser implementado?

Neste momento, existem três versões do projeto de ato legislativo: a da Comissão Europeia, a do Conselho – que representa a posição conjunta dos Estados‑Membros – e a do Parlamento. As três instituições iniciarão já este mês as negociações para chegar a acordo sobre o texto final. Esperamos que o texto esteja concluído até ao fim do ano. Nessa altura, estaremos em condições de tomar uma decisão sobre a futura emissão do euro digital.

A votação no Parlamento Europeu na semana passada constituiu um marco muito importante, sobretudo porque alguns legisladores foram inicialmente mais críticos em relação à proposta da Comissão. No entanto, o texto que acabou por ser aprovado está estreitamente alinhado com a abordagem adotada pela Comissão e pelo Conselho. Esperamos que as negociações em trílogo decorram sem grandes dificuldades.

O BCE está satisfeito com a posição adotada pelo Parlamento Europeu?

De um modo geral, sim. O texto está, em larga medida, alinhado com a abordagem delineada na proposta inicial da Comissão. Há alguns aspetos que gostaríamos de ver reforçados. Por exemplo, o requisito de os prestadores de serviços de pagamento apoiarem a aplicação que o BCE está a desenvolver para o euro digital. Esta visa proporcionar acesso universal, resiliência em circunstâncias excecionais e um nível de acessibilidade que vai além das normas europeias. Em consonância com a proposta da Comissão, gostaríamos que o texto final assegurasse que todos os europeus têm sempre a opção de utilizar a aplicação.

O euro digital tem sido visto por algumas famílias políticas no Parlamento Europeu como um projeto divisivo. Acha que essas divergências vão ser ultrapassadas durante as negociações?

Não concordo com a afirmação de que seja um projeto divisivo. O euro digital foi aprovado por quase 70% dos deputados do Parlamento Europeu, o que não é de todo divisivo. No Conselho da União Europeia, todos os Estados‑Membros chegaram a acordo sobre uma posição comum.

Estamos perante um projeto profundamente transformador e, por isso, é importante que tenha um forte apoio democrático. Na conceção do euro digital, procurámos dar resposta a todas as preocupações expressas no processo legislativo.

Estamos a trabalhar no sentido de garantir que o euro digital funciona para todos, com os mais elevados padrões de privacidade e acessibilidade. O euro digital será uma forma digital de numerário, complementando as notas e moedas de euro que unem os europeus.

Caso o texto não seja aprovado até ao final deste ano, o BCE tem margem para acomodar esse atraso sem ter de reconfigurar o projeto?

Pretendemos estar preparados para uma primeira emissão em 2029, pressupondo que o processo legislativo é concluído até ao final de 2026. Sempre afirmámos que, em caso de atraso no processo legislativo, teríamos de repensar de novo o calendário e não o projeto. Em qualquer caso, só tomaremos uma decisão sobre a emissão do euro digital após a adoção da legislação.

A vertente técnica dos preparativos está a avançar rapidamente e, de acordo com o nosso calendário atual, iniciaremos o projeto‑piloto em 2027. Este constituirá uma oportunidade crucial para testar a conceção do euro digital e recolher observações. Será o primeiro passo, a que se seguirão medidas adicionais centradas na expansão e no desenvolvimento de funcionalidades em preparação para a emissão.

O que significa o euro digital para um país como Portugal, que já dispõe de um sistema nacional de pagamentos como o MB WAY? Que vantagens trará para o dia a dia dos portugueses?

Antes de mais, trará simplicidade. É verdade que Portugal dispõe de um sistema de pagamentos muito eficiente. Mas os portugueses não são apenas portugueses, são também cidadãos europeus.

Quando um banco dos Estados Unidos emite um cartão de débito, o cliente espera poder utilizá‑lo em qualquer lugar nos Estados Unidos. Na Europa isso não acontece. Um cartão ou sistema nacional de pagamento, como o MB WAY, funciona bem em Portugal, mas não será aceite, por exemplo, na Croácia ou na Finlândia, exceto se estiver associado a redes internacionais não europeias. Mesmo quando funcionam, muitas destas soluções nacionais têm limitações. O euro digital permitirá utilizar um único meio de pagamento em toda a União Europeia, para todos os tipos de pagamento, sem depender de infraestruturas estrangeiras.

Existe, contudo, uma dimensão ainda mais importante. Os europeus não são apenas consumidores. São também cidadãos. E, enquanto cidadãos, devem preocupar‑se com a segurança do sistema de pagamentos.

Hoje, dois terços dos pagamentos com cartão realizados na Europa são processados através de sistemas não europeus. Isso representa uma vulnerabilidade significativa, sobretudo num contexto de tensões geopolíticas. Saber que pode pagar em qualquer lugar da Europa, em qualquer circunstância, utilizando infraestruturas europeias, aumenta a segurança e a confiança no sistema de pagamentos.

Além disso, o euro digital oferece uma funcionalidade que atualmente nenhuma outra solução disponibiliza: pagamentos offline. Será possível efetuar pagamentos aproximando dois telemóveis, sem ligação à Internet. Essa funcionalidade pode ser extremamente útil. Lembremo‑nos, por exemplo, do grande apagão que ocorreu em Espanha e Portugal no ano passado. Se as pessoas tivessem o euro digital carregado nos seus dispositivos, poderiam continuar a fazer pagamentos mesmo sem ligação à rede de Internet.

Onde é que isso deixa empresas como a SIBS, proprietária do MB WAY? De que forma podem beneficiar do euro digital?

O euro digital será disponibilizado através dos bancos. Estes sairão beneficiados porque, atualmente, nenhuma solução privada consegue cobrir toda a Europa ou todos os tipos de transações.

Para oferecer aos clientes uma solução que funcione em toda a Europa, os bancos têm de recorrer a uma associação com redes internacionais não europeias, o chamado “co‑badging”. E isso tem um custo.

Sempre que um pagamento é processado através dessas redes, o banco emissor tem de pagar comissões significativas. Os bancos recebem uma remuneração pelos pagamentos, mas uma parte dessa receita acaba por ser transferida para essas redes internacionais. Se, em vez disso, utilizarem o euro digital, deixam de pagar essas comissões. Estamos a falar de valores bastante elevados.

Imagina um cenário em que os portugueses acedam ao euro digital através das aplicações que já usam, como a do MB WAY?

Absolutamente. Essa é precisamente a ideia. As aplicações existentes poderão integrar as funcionalidades do euro digital.

Tem defendido que o euro digital é importante para reforçar a autonomia e a independência da Europa relativamente a prestadores de serviços de pagamento dos Estados Unidos. Porque é que isso é tão importante neste momento?

Atualmente, 13 dos 21 países da área do euro nem sequer dispõem de um sistema nacional de pagamentos. Países como a Finlândia e a Croácia não têm qualquer solução como o MB WAY, simplesmente utilizam sistemas internacionais de cartões. Os pagamentos dependem de infraestruturas que não estão sob controlo europeu. Enquanto banco central, isso preocupa‑nos. É uma das razões por que estamos a desenvolver o euro digital. Mesmo que não existissem as atuais tensões geopolíticas, continuaríamos a fazê‑lo.

O que mudou foi a urgência de cumprir o nosso mandato de assegurar o bom funcionamento dos sistemas de pagamentos na Europa. A atual situação internacional veio reforçar a importância da autonomia estratégica. O euro digital reforça essa autonomia porque permite aos cidadãos saber que as infraestruturas através da quais efetuam os seus pagamentos estão sob controlo de instituições europeias. Isso fortalece a confiança na moeda e preserva a nossa soberania monetária.

Os Estados Unidos desistiram do dólar digital. Vários bancos europeus também estão a desenvolver stablecoins denominadas em euros. Podem o euro digital e as stablecoins coexistir?

Essa foi uma decisão das autoridades dos Estados Unidos. Na Europa, as autoridades tomaram uma decisão diferente. Consideramos essencial preservar o direito dos cidadãos a utilizar moeda pública numa economia digital. É isso que representa o euro digital: uma forma digital de numerário, que complementará o dinheiro físico. As pessoas continuarão a ter a liberdade de escolher como pagar.

Contudo, se alguém quiser utilizar stablecoins (criptomoedas estáveis) emitidas ao abrigo de legislação da União Europeia, é livre de o fazer. Não nos compete decidir como as pessoas devem efetuar pagamentos. A nossa responsabilidade é garantir que os cidadãos têm sempre a opção de pagar digitalmente com recurso a moeda emitida e garantida pelo seu banco central, como acontece atualmente com o dinheiro físico.

O euro digital vem acompanhado de um teto máximo que as pessoas podem deter nas suas contas. De que valores estamos a falar?

Esse processo será definido na legislação. Considerando o texto jurídico adotado até à data, o BCE, em concertação com a Comissão Europeia, fará uma recomendação sobre quão elevado esse limite máximo pode ser. Caberá depois aos legisladores tomar uma decisão e, tendo em conta esse limite máximo, o BCE decidirá que montante de euros digitais os cidadãos podem deter nas suas contas. Já publicámos as simulações que fizemos a pedido do Parlamento Europeu, com diferentes limites entre 500 euros e 3 mil euros. Dentro destes limites, não identificamos, mesmo no caso de uma crise extrema, quaisquer riscos relevantes para a estabilidade financeira.

Importa salientar que os consumidores também poderão efetuar e receber pagamentos de montantes que excedam esse limite, graças a uma ligação com a sua conta bancária. Esta possibilidade assegurará pagamentos sem descontinuidades em euros digitais, independentemente do montante da transação e do nível do limite máximo de detenção.

Como têm decorrido as conversações com os bancos sobre esta questão? Os bancos têm pedido um limite inferior?

Quando se estuda Economia, aprende‑se que é mais importante observar o comportamento das pessoas do que aquilo que elas dizem. E o que observámos foi o seguinte: quando abrimos o convite para participação no projeto‑piloto do euro digital, mais de 50 bancos e empresas de serviços de pagamento da Europa candidataram‑se, o que me parece um sinal muito forte de confiança por parte do setor bancário. Esta semana, anunciaremos os candidatos selecionados.

(A primeira pergunta e a correspondente resposta foram atualizadas para refletir a votação do Parlamento Europeu, em de 9 de julho de 2026, sobre o “Pacote Moeda Única”. A última frase da entrevista foi adicionada.)

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